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Por um outro lado

Escritora frustrada. Mãe babada.Trapalhona por excelência. Gaja a quem tudo acontece. Adora escrever e fotografar sobre isso, apesar do jeito duvidoso. Experimentou Um lado. Agora, experimenta Por Um Outro. Será o avesso o lado certo?

Por um outro lado

#Diários de uma escritora frustrada... vida (des)arrumada

vida arrumada.jpg

 

 

AH! ERA TÃO BOM conseguir sentar-me a escrever e ter tudo certinho à minha volta. ERA TÃO BOM, poder descansar na certeza de que as coisas estão no seu devido lugar. ERA TÃO BOM avançar na pesquisa sem o caos e a desordem do dia-a-dia.

ERA TÃO BOM que a compulsivo-obssessiva aqui pudesse, tal como nos tempos de escola, sentar-se no quarto, isolar-se do mundo, alinhar tudo à sua frente, e começar a escrever. Canetas alinhadas, cadernos abertos, folhas limpas, livros empilhados, computador direito… sentada com todos os apoios no sítio, cada protector de articulações em ângulo perfeito, todo o corpo suportado… ERA TÃO BOM.

 

Mas não é. O que há é o caos da vida.

O ressonar baixinho na alcofa ao meu lado. O choro provocado pela chucha que cai. O silêncio roubado aos sons do dia. As pilhas de papéis que se amontoam. Os livros em pilhas tortas que suportam os comandos da tv e o telefone. As canetas pousadas em qualquer lado apenas para que saíssem do caminho. O termómetro digital a ocupar espaço precioso na mesa, agora, de trabalho. O creme, de nome ridículo, para alívio aos dentes que nascem e gengivas que fervem. Os cabos e carregadores enrolados sempre à mão. O pousar de mais uma folha sem fazer barulho… e ter um braço requisitado porque o som das teclas despertou-a do sono reparador.

 

ERA TÃO BOM ter tudo arrumado. Compulsivo-obssessivamente direito. Em espaço largo e desobstruído.

 

Mas, de vida vazia e arrumada, não se constróem pessoas felizes. Felicidade são coisas desarrumadas. É ter o prazer de saber que, cabe-nos a nós, arrumá-las o melhor que sabemos e conseguimos. Felicidade é o suspiro de alívio após um dia de correrias ter terminado. Felicidade é o sorriso no rosto da minha filha cada vez que desperta e me vê. Felicidade é abraçar a minha cara-metade em instantes roubados às obrigações do dia.

 

Era bom ter tudo arrumado. Mas, vidas arrumadas e corações vazios, são modo de vida. Não da minha vida. Já não são o molde da minha vida.

 

Troquei o escritório alinhado pela pilha de fraldas. Sem ressentimentos. Sem arrependimentos. Troquei a esterilidade limpa pela vida complicada… e animada. E, foi a melhor troca que podia ter feito na vida.

 

De escritora falhada a mãe babada… uma evolução natural... e muito mais sobre o que escrever.

 

Por um outro lado

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